Grandes desejos

Grande desejo que é o toque. Alberto Pires saía todos os dias às 7 da manhã. Saía de seu quarto e dirigia-se até a cozinha. Despenteado, desarranjado, desgovernado. Sentava-se numa cadeira de madeira apodrecida, estendia a toalha com motivos natalinos e começava a recolher os farelos do pão já consumido. Acreditava ser este seu trabalho, sua missão na vida. Conversava com as formigas, que de tão interesseiras só se aproximavam do pobre para lhe roubar os farelos que passavam despercebidos. Quando terminava suas tarefas, dirigia-se até o quarto de sua mãe, que incomodada, lhe dava coronhadas na cabeça com uma espátula de bolo. Ela dizia que garotos como ele não podiam entender sua profissão e não mereciam seu tempo. Talvez por isso, fosse tão infeliz. Nunca havia sido tocado por uma mulher, nunca havia experimentado o gosto da libertinagem, do desejo, enfim, dos benefícios e malefícios da sexualidade humana. Alberto é o típico atípico. Individual dentro de sua falta de indivíduos. Não sabe ser, não sabe saber, não sabe tentar. Sua vida, escondida, acabou por demiti-lo da função de vivente. E o desemprego, como sabemos, é o problema do século. Grande desejo que é a estabilidade.

 

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