Carta ao meu infortúnio

Infortúnio é observar essa tela em branco. Me engolindo, me roendo. Esperando que eu escreva algo.
Esperando que eu conte. Que eu vomite de forma organizada e suficientemente tocante o que me preocupa, o que me constrange.
Eu quero contar, mas é estranho, não sei como. Vou tentar escrever uma carta.

– Querida folha de papel em branco…
– Diga! (sim, eu falo)
– Nossa!
– Continue.
– Bom, querida folha de papel em branco… sinto uma dor enorme em meu coração. Mas isso já se tornou tão corriqueiro, 10 minutos de alegria e 3 meses de sofrimento.
– Não se preocupe.
– Não?
– Veja meu caso. Passo os dias aguardando que alguém me preencha. Que alguém faça das letras meu alimento. Sou vazia.
– E isso não acaba com você?
– Não. Porque no meu vazio, nessa imensidão branca e límpida, sempre encontro uma velha companheira.
– Quem?
– A esperança.

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3 comentários sobre “Carta ao meu infortúnio

  1. Quisera eu acreditar que não fui usada
    Quisera eu acreditar que não sou mais outra
    Quisera eu acreditar que eu não sou mais aquela…

    Quisera eu perceber que não vivo mais na função
    De alguém que não era eu, sem eu, porém alguém
    Que de tanto se ocultar acabou por tornar são
    Das coisas quiçá oferecidas à outrem

    Me sentindo assim percebo, que nada daquilo dantes notado
    Fazia mudar a ordem certa, em situações onde a ordem era a regra

    De adestrada me tornei adestrante, de espectadora me tornei protagonista,
    de amada me tornei amante… Mas o vazio permanece, maior do que nunca

    Que adianta continuar a representar mesmo sabendo que a farsa é passageira
    e que de tão passageira se torna casual, que casual é a palavra do momento
    Descompassada, descompromissante e descompromissada.

    Escolhas nem sempre são sinceras, mas de mentiras tão sinceras seduzem,

    e que no fim se resumem a um mesmo fim…

    Beijo ari! 🙂

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