Vem cá

Minhas coisas estão jogadas e não vou recolhê-las. Minha mãe está desapontada, mas não posso ajudá-la. Seu copo está sujo, lave-o. Sua roupa está amarrotada. Estão me atirando flores, mas parecem tijolos. Confundo o que quero e o que não quero. Vago sozinha nas ruas esperando meu show continuar. Egoísmo puro, meu, seu, de todo mundo. Nosso egoísmo bonito, poético e voraz. Morde minha boca e torce meu braço… congela meus ossos e amarga meus casos. Te prometo um futuro que não sei se quero pra mim, proteção, solidão. Seu desprezo assassinou minha vontade de caminhar. Vou puxar uma cadeira e aguardar os pensamentos ruins irem embora. Muitas vezes uma bala na cabeça é o que não temos coragem de dizer. Muitas vezes, não tenho coragem nem de viver. Quanto mais de morrer. Morrer dá trabalho. Sofrimento demanda energia. E é por isso que mesmo morta, ainda vivo. Mais que muitos, mais que todos. Vivo porque não há nada melhor pra fazer. Eu poderia estar tomando um café, comendo um pão. Mas estou morrendo um pouco mais. Cada dia mais. Vem cá, me dá um abraço.

Eu acreditei

‘ … E ele me disse: pra te acompanhar, tem que ser alguém incrível. Não se preocupe nos que se vão, nos que mostram quem eram na verdade. Existe pureza na queda de conceitos, na queda de máscaras. O destino, força superior, ou como quiser chamar… sempre dá um jeito de revelar a essência dos encontros e desencontros. Mesmo quando parece que a vida puxou seu tapete. Mesmo quando parece que cortaram suas pernas e que você não vai mais conseguir levantar. Você vai levantar, sim. Vai demorar. Mas você vai renascer, muito mais forte e muito mais sóbria. Acredite em você, na força do seu talento, na sua luz. Ela vai iluminar o que agora parece impossível de entender. Irradie suas idéias, saiba que elas fazem o que você é. A arte está em você. E isso não pode ser menosprezado. Você não pode fugir do seu valor, por mais que as pessoas de valor fujam de você. Elas fogem porque sabedoria incomoda. ‘

E eu acreditei nele.

Mais uma vez

Chega de colocar a culpa em mim
Fiz por você o que não fiz por ninguém
Dei o melhor dos abraços
Te enfeitei com mil laços

Agora, se não quer
Vou tentar aceitar
Outra pessoa enganar
Outro corpo aquecer

Não vou esperar
Mais um beijo
Mais um toque
Mais uma lamentação

Mais uma mentira
Mais um amor
Mais um medo
Mais um não.

Pratos sujos

Eu tô muito bem
Muito bem
A cabeça que eu tenho em cima do meu pescoço
Tá bem erguida
Porque a sujeira
Não é minha.

Sempre fiz por merecer
Talvez eu também mereça a lama
Algumas respostas, sempre quis algumas
Não sou de perguntar.

Mas deve estar certo
Tudo alinhado com o universo
O prato, é só lavar.

O que não dá pra lavar
É a sua cara
Essa…
Não vai negar.

Veneno

E agora chega o coração, invertendo todas as minhas certezas, cansando meus olhos, me proibindo de ver a beleza que sempre esteve diante de mim. Na minha confusão, queria um abraço. Queria um pedaço do que perdi quando te encontrei. Não dá pra chorar sem lembrar do meu destino, do teu desatino. Você chegou sem avisar que viria, disse que seria minha, não bateu antes de entrar. Não é justo que eu consiga descansar só em teus braços, que ainda queira seguir seus passos. Diz, por favor, o que quero escutar. Tire minha roupa, e leve com você meu fôlego. Veneno (s.m), do latim venenum: Substância que mata seres vivos ou os torna doentes. Acho que estou doente. Não por mero acaso, veneno é o nome do seu perfume.