Cria

Sou eu
Só eu
Somente eu
Me olhando

Examino-me com cuidado
Vejo que nada disso
Vai vingar
Vai suportar

Minhas carnes
Meus ossos
Nem me preocupo
Vou pra lá

Tem uma coisa engasgada
Logo aqui onde não deveria ter
Minha garganta dói
Porque quer despejar algo

Já lhe digo:
Se cria és, de suas criações
Viverás criando
Viverás de falsos bordões

O nada vem do nada
Se você não anda
Continua sendo zero
Zero, estático

Essa vida é uma babaquice
Quando eu morrer
Vou perguntar pra Deus
É agora que começo a viver?

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Tudo igual

Sempre acordou por volta das 8:00 da manhã. Tomava seu café, olhando para a cara de sua mãe. Ela lhe impunha respeito, possuía feições duras e ríspidas. Na verdade, o conjunto da obra lhe dava medo. Feito isso, sentava em seu carro e dirigia até seu trabalho. O trânsito empoeirado da cidade lhe dava nojo, e ia tossindo seus rancores até o destino final. Chegando no trabalho, antes de descer de seu carro, típico de classe média, passava a mão no rosto e respirava fundo. Era uma espécie de ritual, algo que não podia faltar para começar o dia. Pegava sua sacola alaranjada, com algumas bugigangas, e subia até o segundo andar. Avistava sua cadeira cinza de apenas duas rodinhas (as outras estavam quebradas), sentava-se, e ligava o computador. Nas horas vagas, escrevia crônicas. Seu maior medo era se tornar uma pessoa mediana. Alguém como eu, ou como você.

Sabe

Sabe
Eu nem sei mais do que eu tô falando
Quis escrever a letra mais simples
Entender o que há em mim

Sabe
Algumas coisas não são pra ser
Algumas palavras não precisam ser ditas
As coisas se renovam

Sabe
A calmaria vem aí
Foi o que eu sempre pedi
Não sei se é natural

Sabe
Suas mãos são minhas
Sua boca é macia
E eu vou me entregar.

Sabe
Finalmente eu troquei o assunto
Eu tô tranquila
Eu vou voar.

Provas

Os gritos
Desilusões
Brigas dentro dos carros
E arranhões

Provam apenas
Que a vida vive
Que a vida pulsa
E que ainda não morri

O mundo
Está em suas costas
Cansadas
Afetadas

Quanto maior o fardo,
Maior o fardo.
Não é repetição
O fardo só se expande

Tanto para provar
Corre e não sai do lugar
Expectativas do futuro
Expectativas sem querer

A cobrança vem de dentro
O bombardeio vem de fora
Os muros caem em minha cabeça
E a vida…

A vida quer é viver.