O jogo da calcinha bege

Sempre quero escrever sobre assuntos não permitidos. Sou romântica, sou cafona. Quero falar muitas coisas mas é preciso ter cuidado, a gente tem que se preservar e se reinventar sempre.
A dica é: não se mostre. Não se mostre nunca. Sempre fui contra joguinhos. Se eu ligo, estou demonstrando interesse. Se não ligo, não demonstro que quero. Mas depois de algumas experiências, vejo que o jogo é necessário. As pessoas não funcionam sem jogos. É tudo muito louco, acompanhem comigo… se quero algo, não posso mostrar que quero. Acho isso um absurdo, mas o conselho mais comum que recebo é: finja que não está nem aí. Nasci com defeito, não sei fingir. Resultado: vou ficar solteira pra sempre. Caso isso de fato aconteça, já aviso que serei bem feliz. Não terei que mudar meu jeito por ninguém, e meu gato provavelmente vai me amar como sou. Vou poder usar calcinha bege. Vou poder deixar a toalha molhada na cama. Vou poder dormir ocupando a cama toda. Claro que existem alguns contras, mas já estou velha. Tenho preguiça de me adaptar ao outro. Goste de mim como sou ou se retire, porque honestamente, não vou mudar. E nem quero.

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Varrendo

Simples como as coisas que acontecem sem pedir permissão. Chegou, puxou uma cadeira e ficou por ali, talvez por pura comodidade ou costume. Dá pra ver que é bom rapaz, trabalhador, bem vestido e de poucas palavras. Diz que só diz a verdade, mas mente quando lhe pedem dinheiro. A gente nunca sabe o que esperar desse pessoal que vem lá de fora… alguns são muito úteis, ajudam a varrer os restos das coisas que largamos pelo chão, mas só. Outros são úteis, amáveis e bonitos. Outros ainda são cheirosos. Enfim… são muitas qualidades. Mas eu… eu quero o que tem um sorriso tímido e desconfiado, aquele que sempre duvida do que digo. Só tenho medo de apertar o start. Porque afinal… todo start tem um game over.

Planos

Nunca fui da turma dos organizados, a palavra planejamento me dá arrepios. Penso que planejar é contribuir para um mundo mais artificial. Se você planejou algo, muito provavelmente também já calculou riscos e vantagens, já sabe ou tem alguma noção do que vai acontecer no final. Quem planeja tem um resultado esperado, o mínimo de retorno garantido. Eu não planejo nada. Acredito que a emoção e o frio na barriga do inesperado são mais gratificantes do que meia dúzia de números estáveis. Se deu certo, muito bem. Se não deu, vou chorar, me debater, espernear… mas logo passa, e o acaso me propõe outra solução rápida e eficaz. Tudo isso é muito legal enquanto ainda somos jovens, mas e a velhice? Esta sim, exige planejamento. Exige planos de previdência privada e dinheiro guardado na poupança para eventuais dentaduras e cirurgias bizarras de órgãos com nomes complicados e extensos. O tempo passa, estou ficando velha. Estou lutando comigo mesma. Estou aprendendo o que é planejar, estou aprendendo a ser artificial, estou aprendendo a ser medíocre… como todos os outros. Lamentável.