As mãos

Pelas minhas mãos já passaram muitos corpos
Já passaram pedras
Já passaram livros
E já passaram copos

Pelas minhas mãos entendo o mundo
Sou dessas que tocam
Que apalpam
Que desfocam

Pelas minhas mãos garanto meu sustento
Escrevo poemas
Detalho idéias
Repenso meu momento

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Mais e melhor

Pra falar a verdade, eu não sei se tenho vocação pra alguma outra coisa além de amar e falar de amor. Pra falar a verdade, eu não devo ter vocação nem pra isso, afinal estou sozinha com os meus cobertores e meus pares coloridos de meias. Pra falar a verdade, estou aqui buscando palavras para entender ou descrever o sentimento estranho que invadiu meu cérebro, meus olhos e minha pele.

Pra falar a verdade, eu sempre temi sua intensidade, sua rapidez e sua fala convicta. A gente nunca tem certeza de nada, como você teria? Pra falar a verdade, não queria acreditar que a superficialidade acompanhava cada palavra sua, já que o que saía de mim era real. A verdade é que eu preciso de grandes verdades, mesmo que sejam inventadas. Mas as que você me mostrou se dissolveram muito rápido.

Pra falar a verdade, ainda estou em busca de um nome para o que sinto nesse momento. É como se o dono da casa lotérica tivesse me dito: você ganhou sozinha 76 milhões de reais em barras de ouro. 5 minutos depois: erramos o nome do ganhador, me desculpe, não era você. É… é tipo isso.

Mas é necessário ser verdadeiro. É necessário vadiar por aí, dar bons goles em boas bebidas. É necessário sangrar, existir na dor e na mais dura das provações. É necessário chorar… chorar até que existam motivos pra chorar mais e de novo. Provar que as verdades existem, e que as coisas podem ser profundas. Que elas podem ser do tamanho da minha profundidade sombria, que afasta todos que se aproximam.

Ninguém é perfeito. Mas quero alguém que saiba que as dificuldades existem para que a cumplicidade seja atingida. Para que no primeiro atrito as divergências não encubram os momentos bons. Aqueles, tão intensos.

Mas a gente não morre não. A gente só escreve, mais e melhor.

Paixonites

Em noites como essa, de muita chuva e pouca conversa, o que me resta é escrever. Escrever para acreditar que estou conversando com alguém. Talvez seja uma conversa comigo mesma. Eu, na minha mais pura inocência, acreditei que um dia pudesse fazer do ato de escrever uma profissão. De fato, dá para fazer. Mas isso só é para quem é perfeito, para quem fez cursos com Eugênio Mohallem ou conhece algum organizador de Cannes. Eu, uma qualquer comum, não posso com a redação. Não posso porque não sou perfeita. Não posso porque não escrevo do jeito que querem que eu escreva. Não organizo as letras com o cérebro, organizo com o coração, mas confesso que hoje meu coração está desorganizado… sempre falo dele por aqui… afinal, é ou não é um órgão vital? Só estou dando a devida importância. Mas é como diz o ditado: quanto mais você quer, menos você tem. Eu não tenho nada… porque sempre quis muito. Imaginava tardes lindas deitada na grama de mãos dadas. Noites de chuva no cinema, viagens intermináveis… que nunca existiram. Como eu faço para não querer? Para não desejar? Sou humana, preciso de carinho, preciso de amor. E não tenho. Assim como não tenho a capacidade de comprar um carro ou uma casa através das coisas que escrevo.

1 milhão de vícios

Acho que me cansei de escrever
Não sinto vontade
Meu coração não fala
Nada é motivo

Estou lendo um livro
Acompanhando histórias
Elas não saíram de minhas mãos
Pouco importa

Tenho 1 milhão de medos
Ouço 1 milhão de gritos
Mas 1 milhão de letras
Já não me arrepiam

Todo esse tempo
Já não significa nada
Quando na vida não vemos sentido
Quem morre é a palavra