Dores e beliscões

Um cachorro pequinês beliscando o bico dos meus mamilos apenas com os dentinhos da frente
Um copo de café quente que derrubam em suas pernas
A lateral de uma folha sulfite cortando seu dedo mindinho
Um elástico batendo no seu nariz
Um beliscão da sua tia

Tudo isso dói.

Escrevo para que a dor passe. E confesso ter a esperança de que escrevendo, você volte. Bullshit.

Esperança. Alguém sabe como matar esse sentimentozinho insistente e irritante?

Que assim seja

Que os amores sejam correspondidos, que os trabalhos sejam bem remunerados e que as chuvas sejam só de verão.
Que nossos pais nunca morram, que o leite esteja sempre quentinho e que o tempo passe devagar.
Que as pessoas sejam sinceras, que as palavras cumpram seu significado e que eu ganhe na loteria.
Que alguém te abrace no fim do dia, que o céu esteja azul e que o choro seja de alegria.

Que a vida seja mais fácil. É o que desejo para amanhã.

Carta ao meu infortúnio

Infortúnio é observar essa tela em branco. Me engolindo, me roendo. Esperando que eu escreva algo.
Esperando que eu conte. Que eu vomite de forma organizada e suficientemente tocante o que me preocupa, o que me constrange.
Eu quero contar, mas é estranho, não sei como. Vou tentar escrever uma carta.

– Querida folha de papel em branco…
– Diga! (sim, eu falo)
– Nossa!
– Continue.
– Bom, querida folha de papel em branco… sinto uma dor enorme em meu coração. Mas isso já se tornou tão corriqueiro, 10 minutos de alegria e 3 meses de sofrimento.
– Não se preocupe.
– Não?
– Veja meu caso. Passo os dias aguardando que alguém me preencha. Que alguém faça das letras meu alimento. Sou vazia.
– E isso não acaba com você?
– Não. Porque no meu vazio, nessa imensidão branca e límpida, sempre encontro uma velha companheira.
– Quem?
– A esperança.