Carta ao meu infortúnio

Infortúnio é observar essa tela em branco. Me engolindo, me roendo. Esperando que eu escreva algo.
Esperando que eu conte. Que eu vomite de forma organizada e suficientemente tocante o que me preocupa, o que me constrange.
Eu quero contar, mas é estranho, não sei como. Vou tentar escrever uma carta.

– Querida folha de papel em branco…
– Diga! (sim, eu falo)
– Nossa!
– Continue.
– Bom, querida folha de papel em branco… sinto uma dor enorme em meu coração. Mas isso já se tornou tão corriqueiro, 10 minutos de alegria e 3 meses de sofrimento.
– Não se preocupe.
– Não?
– Veja meu caso. Passo os dias aguardando que alguém me preencha. Que alguém faça das letras meu alimento. Sou vazia.
– E isso não acaba com você?
– Não. Porque no meu vazio, nessa imensidão branca e límpida, sempre encontro uma velha companheira.
– Quem?
– A esperança.

Página em branco

Aqui estou, olhando essa página em branco.
Preciso escrever, só não sei como.
Preciso escrever que sinto raiva.
Que sinto dor.
Que perdi meu tempo.

Que eu queria muito.
Sempre quis muito.
E me restou o nada.

Agora, esse nada é o que tenho.
Melhor assim.
Antes o nada, do que a dor.
Antes o nada, do que a raiva.

Antes não saber amar.
Confortável, pra você.