Particularidades

Da minha dor só eu sei. Dor é tão particular quanto sexo. Nas duas situações, só as paredes do quarto escutam. Em uma, os gemidos. Na outra, os soluços. Tenho uma amiga que diz: Você gosta de sofrer, se acostumou. Deve ser o mesmo com o sexo. Nunca fui fã de textos descritivos. Acho uma chatice reproduzir o que se vê, mas agora devo anotar: Vejo meu rosto pálido embebido em lágrimas provocadas por mais uma besteira qualquer. Eu já as conheço, elas já me toleram. Rolam sem cerimônia pelos caminhos tortos de minha face mal desenhada. Deve ser mais um bocado de nada de novo. Mais do mesmo, sabe como é.

Pólo Norte, Pólo Sul

Esquerda ou direita
Arroz ou feijão
A gente é assim
Não combina, não

Mas será que só eu
Sinto a pele arrepiar
Quando te vejo
Quero te tocar

Sei que passa
Que tudo é arrastado
Que o relógio vai levar
Tudo vai embora

Mas por enquanto
É tatuagem
É cheiro
É sua pele

Tudo diferente
Tudo igual
Descombinando
E combinando

Em meio aos lençóis
O que é dois vira um
Você sou eu
E o que era diferente
Vira atração.

Tocando em frente

Você tem que andar
Na corda bamba
Equilibrar
Se cair, desanda

Não deixe
O sentimento te dominar
Não esqueça o coração
Mas preste atenção

Abra os olhos
Sua vida
É você quem faz
Não dependa de ninguém

Levantar
É sua obrigação
Olhe pra frente
Ninguém vai te dar a mão

Sofra o que tem pra sofrer
Viva o que tem que viver
Mas não esqueça
Confiar, só em você

Saiba de onde veio,
Tenha orgulho dos seus pais
Caminhe sozinho
Faça sempre mais

Mais do que esperam
Mais do que é possível
Mais do mundo
Mais você.

T.N.T

Tem que fazer
Ninguém vai te ajudar
Tem que se virar
Tem que rolar

Vão mandar
Vão cobrar
Ninguém vai explicar
Tem que fazer

Inventa, vira de ponta cabeça
Gruda, recorta, tenta
Tem que estar pronto
Tem que funcionar

Tem que ser bom
Tem que vender
Superação
Suas metas estão aí!

Chegou atrasado?
Fica até mais tarde!
Fim de semana?
Nada de cama

S.O.S
PERIGO!
T.N.T!
EXPLODIU!

De mãos dadas

Entender propósitos
Encontros
Situações e momentos
É tarefa impossível

Pessoas são trazidas
Pelo vento
Quanto mais elas aparecem
Mais me convenço

De que o surgimento delas
Não passa de uma lição
A cada perda um gosto amargo
A cada ganho uma conclusão

Mas eu queria
Que alguém passasse
Pra ficar
Pra me abraçar

Queria que alguém viesse
E me ensinasse
Me fizesse crescer
Sem soltar minha mão

Minha onda

Seus olhos
Quando cruzam os meus
Queimam a alma
Derretem o tempo

O mundo fica paralisado
Para assistir
Isso que não sabemos o nome
Isso que queremos querer

Gosto de sentir sua pele
Encostando na minha
De te ver andando sem roupa
Gosto de gostar de você

Mas o perigo existe
O risco é presente
Tenho medo de continuar
De te descobrir ausente

Café

O silêncio é o silêncio
Acreditem ou não, ele fala
Fala com as palavras
Que estão rabiscadas em meus olhos

O silêncio espera
Ele é a prudência
Daqueles que não querem errar
Ao abrir a boca

Eu prefiro errar, falar, gritar
Mas tudo isso em silêncio
Na quietude de quem chora
Com a cara no travesseiro

Onde eu penso que vou?
Eu nem queria ir mais
Vou deixar o silêncio
Dizer o que quer

Vou soltar sua mão
Devagar, de forma suave
E ocupar as minhas
Com um copo de café.

Dança de um só

Eu ainda queria acreditar que vou encontrar alguém cheio de paz, amor e dedicação para me oferecer. Eu queria acreditar, porque eu sempre fiz questão de me doar. No trabalho, no amor principalmente. Eu esperei tanto, selecionei tanto e errei outro tanto. Selecionei com meu dedo podre, como já diria uma grande amiga. Agora, de novo, me vejo despencando do velho e conhecido abismo. Na verdade, queria desacreditar, deixar para trás as coisas nas quais acredito. Elas nunca me levaram à nada, eu estou errada e tudo isso é falso. Ontem vimos a lua… ela estava linda e mais dourada do que nunca. Confesso que tive medo ao observá-la fixamente. Parecia que ela queria me contar algo… e contou. Eu fingi não entender. É o mesmo erro… o mesmo ciclo acontecendo bem diante dos meus olhos. Mais uma vez não consigo dormir, mais uma vez estou aqui me lamentando do erro repetido de sempre. E não, não vou fazer nada. Não há o que ser feito. As coisas são o que são. E eu pedi… pedi pra alguma força superior o fim antes do pior. Fui atendida. Promessas, palavras, momentos… subjetividade. Desta vez, não estou fazendo poesia. Não estou tentando escrever bonito ou encontrar palavras elegantes para sentimentos indefinidos. Só escrevo o que é. A verdade em preto e vermelho. Eu quis tentar do meu jeito… pensei que ele fosse bonito. Minha mãe sempre disse que era. Foi o que ela fez a vida toda, e a vida dela deu certo. A minha nunca foi muito certa… sempre fiz drama, chorei quando não quis e bati o pé quando quis. É que de repente me vi tocada. E de repente vi que era mentira. Não conte histórias, não se justifique, o final está aí e não tenho porque condenar certas coisas. Confesso, eu mesma estou cansada do meu prolixo e interminável blá blá blá… mas a cada palavra escrita, uma ferida é fechada. Estou tentando não escrever um pergaminho. Mas está aí, está aí. Sou burra, estúpida, idiota e imbecil. Não me deixo em paz, não abro mão do sofrimento. O que me mortifica é o meu estado. Não ouço o que me dizem, não consigo me concentrar, não presto atenção no trânsito. Vivo como uma morta… e me recolherei até parar de sangrar. De novo.

Cria

Sou eu
Só eu
Somente eu
Me olhando

Examino-me com cuidado
Vejo que nada disso
Vai vingar
Vai suportar

Minhas carnes
Meus ossos
Nem me preocupo
Vou pra lá

Tem uma coisa engasgada
Logo aqui onde não deveria ter
Minha garganta dói
Porque quer despejar algo

Já lhe digo:
Se cria és, de suas criações
Viverás criando
Viverás de falsos bordões

O nada vem do nada
Se você não anda
Continua sendo zero
Zero, estático

Essa vida é uma babaquice
Quando eu morrer
Vou perguntar pra Deus
É agora que começo a viver?

Tudo igual

Sempre acordou por volta das 8:00 da manhã. Tomava seu café, olhando para a cara de sua mãe. Ela lhe impunha respeito, possuía feições duras e ríspidas. Na verdade, o conjunto da obra lhe dava medo. Feito isso, sentava em seu carro e dirigia até seu trabalho. O trânsito empoeirado da cidade lhe dava nojo, e ia tossindo seus rancores até o destino final. Chegando no trabalho, antes de descer de seu carro, típico de classe média, passava a mão no rosto e respirava fundo. Era uma espécie de ritual, algo que não podia faltar para começar o dia. Pegava sua sacola alaranjada, com algumas bugigangas, e subia até o segundo andar. Avistava sua cadeira cinza de apenas duas rodinhas (as outras estavam quebradas), sentava-se, e ligava o computador. Nas horas vagas, escrevia crônicas. Seu maior medo era se tornar uma pessoa mediana. Alguém como eu, ou como você.

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